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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Recado ao senhor 903


Recado ao senhor 903

Vizinho –
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclama contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite – e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explicito e, se não fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a lei e a polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a leste pelo 1005, a oeste pelo 1001, ao sul pelo oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 – que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago sul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão: ao meu número) será convidado a se retirar às 21,45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 horas às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando o número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhes desculpas – e prometo silêncio.
… Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: ” Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou”. E o outro respondesse: “Entra vizinho, e come do meu pão e bebe do meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela”.
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.

Rubem Braga.

 1-) Você já sabe que a crônica é um gênero textual hibrido, que oscila entre a literatura e o jornalismo. Resultado da visão pessoal do cronista, a crônica relata, normalmente, um fato colhido no noticiário do jornal ou no cotidiano. Pensando nisso, responda:
a-) Que fato desencadeou essa crônica?
b-) Esse fato pertence ao noticiário do jornal ou do cotidiano?
 2-) Essa crônica pode ser dividida em duas partes.
Na 1ª parte, o cronista se desculpa do barulho, dando razão ao vizinho e prometendo silêncio.
A 2ª parte começa em “... Mas que me seja permitido” e termina em “a amizade entre os homens, o amor e a paz.”
 a-) Na 1ª parte, ao mostrar a redução dos homens a números, o que o cronista critica?
 b-) Apesar da promessa de silêncio, o cronista não se encaixou “no limite de seus algarismos.” Que palavra da 2ª parte mostra isso ?

c-) Indique como o cronista dá seu recado:
• De forma impessoal e objetiva, numa linguagem jornalística
• De forma pessoal e subjetiva, numa linguagem literária

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